Eu tinha sete anos de idade e desfilei num "sete de setembro", com fome, suado ao sol e com os pés suando dentro de um fedorento sapato escolar de plástico, para o governador do Rio, Dr Geremias de Matos Fontes.
Aprendia a partir dali que éramos o país do futuro, que os governantes são autoridades respeitadas e tbém respeitáveis, que merecem nossas vênias e aplausos debaixo de sol ou chuva, que o Supremo é o guardião da Lei e da Justiça (só muitos anos depois entendi o abismo que existe entre uma e outra coisa), que as Câmaras Legislativas representam o povo, e que a Constituição vem do povo, feita pelo povo e para o bem do povo.
Mais tarde, os espertos iluminados diriam que continuávamos sendo o país do futuro por culpa do brasileiro, que não sabe votar. E pronto, tudo pacificado. Agora tá certo, achamos os culpados. Somos nós, o povo! Mas que povo?
O povo que é obrigado a votar nos que se apresentam ou que lhes são apresentados?
Que vota no Tancredo (o amigo do establishment e avô do Aécio) e ele morre?
O povo que tem que suportar, sob o "rei do maranhão" (do estado mais pobre do Brasil), uma inflação de 89% ao mês?
Que reage, elegendo um caçador, como que indo à luta, e vê caçada a sua poupança de marajá miserável? (Aliás, o "rei do maranhão" por "sorte" retirara a sua poupança do banco às véspera do confisco).
Esse povo que, ao viver por uns anos uma chance de futuro real, se sente forte pra fazer alternar o poder com o proletariado, e aí então percebe que o proletário escolhido só estava esperando uma chance pra exatamente deixar de ser... proletário?
O mesmo povo que sonhou com o Joaquim que amarelou, com o Hulk que esverdeou, com o exjuizministroecandidato que escorregou no tapete vermelho dos expertos, ele que, talvez fosse experto como Juiz, tentou ser esperto como ministro, e acabou sendo inocente como político, pagando certo por sua esperteza?
É mesmo culpado pelas agruras do país, o seu povo que, ao ver se esvaindo a sua esperança pelos dutos de petróleo e esgoto, e o orgulho pátrio pelos sacos de vento dos escândalos, decidiu agir contra todas as evidências e sinais, e depositar seus sonhos nas duas mãos direitas de alguém que, aparentemente, nem sabe a diferença entre direita e esquerda, e acaba optando pelo centro?
Esse povo acuado entre três poderes, sufocado pelas decisões e indecisões, idas e vindas de tribunais e assembleias, onde as leis são feitas e também alteradas, interpretadas, reinterpretadas, validadas ou não, e em última análise atropeladas, sempre, sempre, sempre, de uma ou outra forma, em proveito próprio, sempre, sempre, sempre, o interesse de poucos sobreposto ao de muitos?
Esse povo é culpado de, agora, ter que escolher entre o proletário transformado em burguês e o "imbrochável" dito de direita, que preside um país como se síndico de um pequeno condomínio, ambos terrívelmente evange...lizados pelo manual "Como ficar rico fingindo ser democrata de esquerda ou de direita preocupado com o povo, mas ocupado com os amigos da corte“?
Esse povo vai escolher, é patriota; e vai se arrepender, é seu destino; e vai ser culpado, como sempre, por seus filhos nascerem no eterno país do futuro
É um pesadelo viver num país assim! A saída talvez seja o aeroporto, difícil será escolher um destino, haja vista os outros exemplos.
Existe outra saída: candidatar-se e eleger-se, mas quem o faz costuma passar para o lado dos opressores.
Existe, talvez, ainda outra: criar e executar um novo modelo de Educação, um que ensine liberdade com responsabilidade, livre arbítrio para escolher e capacidade para fazê-lo, e que coloque o interesse de todos acima do interesse de poucos.
Como fazer isso se, num país tão grande, quem pode não quer fazer, não vê vantagem; quem precisa está domesticado, se habituou ao pouco e acha bom; e quem tenta, desanima por falta de apoio de quem pretende proteger, ou é "desanimado" por quem não tem interesse em mudança?
Meus netos aprenderão, sob o sol escaldante, ao lado da bandeira hasteada em um Sete de Setembro futuro, que mais de duzentos anos após o Grito, o Brasil precisará gritar mais forte por um futuro que não terá chegado.
07.09.22, enquanto manifestações pelo país gritavam sim ou gritavam não, alguns choravam.
Ou seus netos farão/serão a diferença . Quem sabe?!
ResponderExcluir