Eu só conhecia sarau, de ler e ver "A Moreninha", de Joaquim Manoel de Macedo. Roneida trouxe o sarau pro Colégio, numa tarde/noite de sábado, que estava fria e assim ficou por pouco tempo.
Aniversário de Cecília - a Meirelles - bombando, também muitos textos de Manoel de Barros, e Drummond sempre presente. Até Leminski estava lá; também Pedro Bandeira, Quintana, Adriana Lisboa, Hilda Hilst... muita gente!
Me deu vontade de reunir uns amigos, como vez em quando fazemos pra jogar conversa fora, mas desta vez diferente, jogar palavras pra fora.
Cada um se apropriaria de um escritor que gostasse. Poucos os amigos, muitos os escritores, então poderíamos assumir mais de um deles.
Ninguém entendeu direito a proposta que eu fazia, eu tentei explicar melhor, mas nem mesmo eu sabia. Foi quando os Titãs, nos lembraram, baixinho, que é caminhando que se faz o caminho. E então nosso sarau começou.
Cecília, era a aniversariante, nós ganhamos o presente: "Eu canto porque o instante existe, e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste, Sou poeta.
...
Sei que canto, e a canção é tudo, tem sangue eterno, a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo. Mais nada "
Muda, Cecília jamais estará. Nesse nível, ficou difícil continuar, melhor seria uma crônica, pra fugir de comparar.
Então, veio Fernando Sabino... nu!, não ele, o homem, o personagem do livro, claro. Ele, que com a porta fechada por trás de si, pelado viu-se pelo corredor, escada, elevador, tentando ficar invisível enquanto sua porta não se abrisse. E toda a confusão aconteceu apenas para fugirem de um cobrador. Vamos ver o fim da história:
"Ligaram para a polícia:
-Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava. -É um tarado! Não olhe. Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta, para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta!
-Deve ser a polícia! disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão". Não deu pra fugir.
O Carlos Drummond, outro mineiro, se riu: E agora, Fernando? "... Com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta. Quer morrer no mar, mas o mar secou. Quer ir pra Minas, Minas não há mais. José, e agora?
Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse, mas você não morre. Você é duro, José... "
A essa altura todos estavam animados, acho que entendemos o que eu queria, se você me entende!
O Mário, ocupado com o tempo, filosofa: "A vida é um dos deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo… Quando se vê, já é 6ª feira… Quando se vê, passaram 60 anos! Agora, é tarde demais para ser reprovado… E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio, seguia sempre em frente… E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas".
Meu amigo pegou pesado com essa leitura, estamos todos na casa dos sessenta, já não podemos ser reprovados. Temos que ler mais e seguir sempre em frente.
Outro mineiro - ainda bem que Cecília é carioca - Paulo Mendes Campos, resolveu fazer graça pra mudar o clima: "Jamais consegui falar razoavelmente ainda uma língua estrangeira. Quem nasce no continente americano não possui língua própria, resignando-se a falar, mal, a língua dos outros."
E ele mesmo, ilustra a afirmação:
"Fernando Sabino viajava de avião, tendo à sua frente uma cantora francesa e um cantor brasileiro que atende pelo apelido de el broto. O avião jogava muito, e o artista nacional, pretendendo tranquilizar a francesa, virou-se para trás três vezes, perguntando ao escritor como eram, em inglês, as palavras "nuvem", "tempestade" e "não há perigo"... As palavras foram subsidiadas com a advertência de que a moça não era inglesa, e sim francesa. El Broto responde: Mas é que eu não sei falar francês!"... Como?!!!
Tentando manter o astral no alto, fui procurar um poema de Hilda Hilst que fosse divertido. Não encontrei. Verdade que não procurei muito. Mas li um fragmento que me encantou, até por me lembrar de outro que ouvimos no sarau do colégio: "... Dizer que coisa ao homem, propor que viagem? Reis, ministros e todos vós políticos, que palavra além de ouro e treva fica em vossos ouvidos? Além de vossa rapacidade, o que sabeis da alma dos homens? Ouro, conquista, lucro, logro, e os nossos ossos, e o sangue da gente, e a vida dos homens entre os vossos dentes". Poema de 1974, continua crítica atualíssima. E rapacidade é o grão imastigável, de quebrar dente... o grão mais vivo que açula a atenção, na magistral imagem que João Cabral de Melo Neto criou, no poema "Catar Feijão", que ouvimos no sarau escolar.
Não dá pra transcrever aqui, todos os escritores que estiveram presentes ao nosso sarau especial, e nada se compara à leitura bem ouvida se bem lida, como vimos no Colégio Novo Rumo. Esperemos as próximas edições de ambos. Os escritores estão ansiosos.
Bela homenagem! Que delícia deve ter sido este sarau! Feliz ideia e rica participação. Quantos escritores mais gostariam de passar por ali? Quem sabe na próxima, que aliás, quando será?
ResponderExcluirEu fiquei orgulhosissima do Sarau, porque ficou muito melhor do que eu imaginei. E seu texto, encantador, porque registrou a alma do que foi nosso SARAU: um encontro de amor! Obrigada, irmão!
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