De longe, na rua, já dava para ver a minha escola. O sol fazia brilhar as cores do arco-íris, mas estava frio na minha cidade de flores e de frio. Fui recebida no portão pelaTia Raquel. Na sala de aula minha professora deu boa tarde para todo mundo, e todos respondemos quase cantando. Tenho um amiguinho novo, ele não sorri como todos, e não gosta de barulho, eu também não, mas ele cobre as orelhas com as mãos e fica muito nervoso. Dei um abraço nele, para ajudar, mas ele ficou mais nervoso ainda. A tia falou uma porção de coisas, bem baixinho, e ele se acalmou; ainda bem, a sala toda estava agitada. Achei que a aula foi muito boa, mas eu não sei se foi mesmo, só tenho sete anos!
Na hora do recreio saímos todos correndo, quer dizer, tentamos sair correndo, mas a tia não deixou, e fomos como soldados em fila. A cantina tinha muita coisa gostosa, mas eu trouxe meu lanche, meu pai falou que era melhor para a saúde, acho que era mais barato. Eu não sei, mas sei que dividi com meu novo amigo, e ele até sorriu pra mim, deve ter gostado muito. Algumas crianças não lanchavam, não deviam estar com vontade ou preferiam brincar.
Depois do recreio a turma estava mais calma, a tia deve ter ensinado melhor, eu acho. Meu amigo voltou a ficar quieto, prestando atenção em tudo, mas sem falar nada, nem sorrir. A tia passou dever de casa e mandou trazer na próxima aula.
Hora de ir embora, outra vez em fila, e cantando. Gosto da minha escola, e dos meus amigos, e da minha professora. Estava com saudade.
Na volta não vejo minha casa de longe, nem as flores da cidade das flores, já está ficando escuro e está mais frio. Minha mãe chega quase junto comigo, ela estava trabalhando. Vou ver um pouco de TV enquanto ela vai fazer o jantar, e só depois vou tomar banho. Agora quem chega é o meu irmão, ele estuda pela manhã e trabalha à tarde, vai tomar banho e sair de novo, não sei quando faz o dever de casa. Será que os mais velhos não têm dever de casa?
Estou ficando com sono, meu irmão não sai do banho, deve estar vendo celular no banheiro, e minha mãe, cansada, sentou-se ao meu lado esperando meu pai chegar do trabalho. Ele demora, meu irmão quer sair, eu estou com sono e minha mãe resolve servir o jantar. Ela briga com meu irmão que fica no celular enquanto come, eu quase não consigo comer, de tanto sono, meu pai chega e se aborrece por que já estamos jantando, e todos falam ao mesmo tempo, até que meu irmão sai, minha mãe vai arrumar a cozinha e fazer o almoço de amanhã, meu pai vai tomar banho, e eu, bom, acho que ninguém vai notar que não tomei banho, então troco de roupa e vou dormir.
Pela manhã, minha mãe me acorda brigando por que dormi sem tomar banho e não fiz o dever de casa, meu irmão está saindo para a escola. Ele deve ser um aluno muito bom ou a tia da manhã é muito boa professora, por que ele não estuda em casa e nem faz o dever. Mas que sei eu, com meus sete anos?! Só sei que tenho que levantar, tomar banho e café, e estudar no sofá sem ligar a TV. Minha mãezinha querida faz meu dever e sai para o trabalho, meu cabelo é difícil, e ela não tem tempo pra ele. Meu pai já saiu mais cedo, ontem trabalhou até tarde no notebook, não sei bem o que ele faz, às vezes parece meio atarantado.
Onze horas da manhã e nem estudei, não deu tempo, e ainda tenho que aquecer o meu almoço, almoçar, deixar o prato e talheres na pia, escovar os dentes e os cabelos, vestir o uniforme, pegar a mochila e ir para a escola, não esquecendo de fechar as janelas e a porta de casa. Acho que isso é exploração de trabalho infantil.
Vou para a escola, chego um pouco cedo e ouço uma conversa da tia com a tia diretora, falavam de alunos que não aprendiam, de pais que não ajudavam e não ensinavam em casa, das tarefas que não eram feitas, da higiene, de outras tias que não tinham paciência, uma porção de coisas que pela cara delas, pareciam tristes e sérias. Perceberam que eu ouvia e me mandaram sair, "você já tem sete anos, sabe que não deve ficar ouvindo conversas de adultos". Meu pai também diz isso, "Você tem sete anos, já era pra saber fazer as coisas sozinha!". Eu queria mesmo é que cuidassem mais de mim, eu só tenho sete anos!
Melhor ir para o parquinho e, no balanço de cordas, enquanto subo e desço, pensar na minha escola, na minha família, na minha vida que já tem sete anos. Como minha mãe diz, a vida da gente é assim, um sobe e desce que não para.
Se eu não tivesse só sete anos, iria trabalhar e não estudar? Se eu fosse minha mãe, ficaria cuidando da minha filha e ensinaria a fazer as tarefas em vez de fazer eu mesma? Se eu fosse o meu pai, eu ficaria mais com minha família à noite, em vez de no computador? Se eu fosse meu irmão, eu iria estudar e ajudar a minha irmãzinha? Se eu fosse a minha tia, conversaria comigo em vez de me deixar triste no parquinho? Tudo muito difícil, coisa de adulto, eu sou apenas uma criança e não entendo nada. Vou aproveitar o balanço, está quase na hora da aula, não estudei a lição e, se a professora me pedir pra resolver o dever de casa no quadro, não vou saber e isso será um problema. Acho que minha mãe não pensou nisso. Vou pedir um abraço ao meu amigo.
O universo do imaginário infantil é incrível, não conhece limites nem barreiras e cria perguntas que o adulto nem sempre dá conta de responder. Crianças entendem tudo de um jeito só seu.
ResponderExcluirSem palavras pra esse texto... ❤️
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