domingo, 23 de junho de 2024

PORTUGUÊS OU ITALIANO?

Meu pai tinha orgulho de si mesmo, dos amigos que cultivou, dos compromissos que honrou, do crédito que tinha, do nome que fez. Tudo merecidamente. 
Quantos já pegaram dinheiro emprestado a 10% ao mês, e mais de uma vez, e pagaram todas as vezes? Quantos já morreram por  não pagar? Meu pai fazia o empréstimo, sofria para pagar, trocava de calçada envergonhado quando atrasava, mas ao final pagava a dívida, ainda que com juros sobre juros, para ter o direito de andar com a cabeça erguida, e de voltar a se endividar. A vida é difícil às vezes, mas ele parecia nem notar, só tocava em frente. Gostava de uma música, e cantava sempre enquanto trabalhava, que dizia: 
Lui, respeita Januário. 
Tu pode ser famoso mas seu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, Lui, Lui, 
Respeita os oito baixos do teu pai. 
Quando eu o admoestava, reagia bravo: 
- Moleque, respeita os oito baixos do teu pai! 
Mas eu não entendia na minha meninice, aprendendo diuturnamente com ele a honrar os compromissos, não compreendia que ele fizesse empréstimos e depois atrasasse o pagamento, mudasse de caminho para não encontrar o credor. Era uma contradição. Somente mais tarde, quando eu, adulto, tinha que, a cada manhã, escolher os credores aos quais eu poderia pagar, os eleitos do dia, tal a escassez de recursos que me impedia de pagar a todos no vencimento, entendi que nem sempre se vê todas as facetas de uma mesma verdade, é preciso viver, é preciso saber viver. 
Certa vez, numa conversa sonolenta pós almoço de domingo em família, comentei que meu nome deveria ser Possodelli, da família italiana da minha mãe, mais bonito, mais nobre, e não o Silva, da família do meu pai, afinal todo mundo era Silva no Brasil. Nossa! A siesta sonolenta se transformou numa guerra, o domingo acabou. Meu pai disse irritado que o nome dele era o patrimônio que ele nos deixaria e que eu não tinha o direito de lhe tirar isso! Nem sei como fiz para acalmá-lo e convencê-lo de que era uma brincadeira, como de fato era... eu acho! 
Uns anos antes eu o obrigara a desfazer uma venda que ele fizera em meu nome sem minha autorização, e isso foi algo muito traumático. Eu levava uma vida um tanto atribulada, não dei muita importância ao fato ou aos sentimentos dele, e nem sei dos desdobramentos da história, sei que, agora, a minha "brincadeira" com o nome foi de mal gosto, e que fui insensível, especialmente pelo fato pretérito ocorrido, e tê-lo esquecido e nunca me preocupado, só aumenta a minha insensibilidade e o meu desvalor. Pena que eu não tenha revisitado esse assunto antes da morte dele, é possível que ele nunca tenha esquecido essa ofensa, embora tenha, com certeza, me perdoado. 
Eu ainda me chamo Silva, e também os meus filhos. Mas Possodelli é bonito demais, né não?!! 


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