Repete agora o mesmo caminho. Vai buscar o filho, que espontaneamente foi para trás do muro. Vai com braços e alma abertos, disposto a trabalhar, a unir esforços até a sonhada estabilidade.
Reencontram-se, filho e pai. Não é muito emocionante, na verdade é meio estranho, ele não aparenta estar seguro, confiante, alegre, parece mais, triste, inseguro, frágil. Não conseguem traçar planos, obstáculos surgem a cada frase, até à conclusão das próprias frases. Muitas perguntas sem respostas, e o pai fala para ocupar os silêncios que o filho procura insistentemente.
Criam uma agenda para os próximos passos, literalmente os próximos, apenas daquela tarde/noite, mais do que isso se mostra distante demais.
Então, ele vai cuidar das pendências que deixou, o apartamento, a casa, a namorada; as pendências do trabalho serão tratadas nos dias seguintes. Vai preparar uma base plana para um recomeço, agora que há mais um elemento na equação, uma criança inesperada, reconhecida e aceita, e que muda totalmente a vida desse garoto de quarenta anos.
O portão, porém, fechado, escondera uma informação muito importante, havia duas incógnitas naquela equação, havia mais uma criança!
Algo que famílias bem organizadas costumam planejar por meses e anos - criar e educar um filho é uma tarefa hercúlea, especialmente na sociedade de hoje de tantos desafios - irrompia abruptamente na realidade desse garoto que nunca levou a vida a sério, e que se vê agora, sem uma estrutura prática de vida, e, principalmente, sem estrutura emocional adequada, responsável por duas crianças, duas outras vidas que não tiveram direito de opção.
E o trabalho? Não será possível trabalhar por uns meses, integralmente necessários à recuperação. Então, não há planos de trabalho, só a tarefa rígida e árdua de cumprir os passos preestabelecidos.
E como ficam as duas mães? E as crianças, uma que já chora, e mama, e demanda cuidados?
O portão já foi aberto, os demônios estão agitados, a vida se apresenta tal qual é, e não há como voltar, resta reorganizar as cartas que caíram no susto, retomar o jogo, e não blefar; a vida pode até ser um jogo, mas com duas crianças não se pode blefar. É possível perder, mas blefar nunca, esse jogo é melhor com as cartas na mesa.
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ResponderExcluirCom carinho, muito amor e compreensão tudo se ajeita.
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