Depois de uns dois anos morando na Arataca do meu tio Neca, meu pai conseguiu escapulir, e nos levou para uma casa que alugou na cidade.
Ele era aposentado pelo INPS (atual INSS), um estilhaço de pedra explodida estilhaçara-lhe a coluna, e por isso recebia uma pensão menor do que um salário mínimo, que tinha que, pessoalmente, resgatar no banco, na capital. É que os bancos eram tão burros e rígidos quanto os bancos do jardim, o que o obrigava a uma viagem todo mês, em tempos de estradas de terra batida e barrenta, ônibus desconfortáveis, e sem comunicação (na Varre Sai da época só existia um posto telefônico para toda a cidade e só muito depois se veio a ouvir trim-trim nalgumas residências mais abastadas; celulares por lá nem eram sonhados!). Uma viagem tão longa, difícil, suja mesmo, repetida mensalmente, por míseros, em valores de hoje, oitocentos reais! Na época era permitido remunerar alguém por menos que um salário mínimo mensal, o que só mais tarde foi proibido, afinal, se era mínimo...
Pois bem, com aquela merreca, mais o seu trabalho diuturno na roça e sua enorme iniciativa e credibilidade, meu pai nos levou pra cidade, para morar em casa alugada, sustentando uma família já então com cinco pessoas, e ainda com o compromisso inafastável de fazer de todos, "dotores".
Naquela casa fui apresentado à escola (o Colégio Miguel Couto Filho ainda está lá, igualzinho), às minhas primas distantes, tão queridas, tão lindas e que tanto me ajudaram, Ana e Maria; ao botequim do meu pai, onde aprendi as operações básicas antes mesmo de saber que era matemática; ao bulliyng que na época não se chamava assim, e à minha irmã Roneida que nasceu lá.
Nos mudamos um ano depois para outra arataca, uma casinha também no fundo de um vale, branca com janelas azuis e uma biquinha d'água de nascente, envolvida por um cafezal, duas jaqueiras, três araucárias centenárias, que muito nos alimentaram com seus pinhões, brejo para plantar arroz, e iluminada por lamparinas e lampeões de querosene, e pela fé inquebrantável de meu pai em si mesmo, na sua capacidade excepcional de se adaptar aos momentos, aos ambientes e situações, e de se levantar após as várias quedas, com a tranquilidade da certeza de que cair e levantar fazem parte do caminho. Naquele sitio Flávio e eu vivemos grandes aventuras, Rosângela era novinha, Roneida recém nascida, e eu ia a cavalo, todo dia pela manhã, buscar leite na sede da fazenda para alimentá-las.
De lá nos mudamos uns dois anos depois, em busca de proximidade com a Escola, era o meu pai na sua incessante busca pela educação dos filhos. Estávamos há uns 5 km da cidade, que pareciam 50 a duas crianças que iam e vinham, a pé, diariamente, sob sol e chuva, e fomos morar em frente ao colégio.
Dali, de importante, lembro de conhecer o pão com manteiga (não gostei, era margarina sem sal), de uma das poucas fotos de família (era difícil e caro fotografar e revelar, e a cara da Roneida é piada interna até hoje); lembro também do mais importante, o nascimento da minha irmã Rosilene.
Meu pai, porém, queria mais, ele queria uma casa pra chamar de sua. E foi atrás. Comprou, sei lá como, do meu Tio Neca, parte do terreno em que ficava a casa dele, e com um pedreiro, um carpinteiro, toras de madeira para fazer as colunas, e a sua liderança forte, num piscar de olhos estávamos morando em nossa própria casa, e ao lado dos nossos tios e primos, a família querida que tão bem nos recebeu depois da "fuga" do Rio de Janeiro.
Ainda iríamos nos mudar mais uma dezena de vezes!
Sim, lembro-me dessas viagens... elas começavam num Ônibus em Varre-Sai, na esquina do bar do Juca, e da venda do seu padrinho Batista, onde você, mais tarde foi balconista. Numa dessas nosso pai voltou com um curativo na testa, pois o Ônibus sofreu uma acidente terrível na serra de Petrópolis, inclusive com mortos, e ele não só se salvou como ajudou a salvar outros. Vivemos, como nossa mãe, horas difíceis sem notícias concretas, até que ele desembarcasse no memo lugar onde havia embarcado; Graças a Deus!
ResponderExcluirDo casarão de fazenda, que você chama de casinha branca de janelas azuis, tenho muitas lembranças também. Sei que sua intenção é educativa, mostrando as lições que aprendeu com cada pedacinho de nossas vidas, mas como (acho) que sou mais romântico, lembro-me mais dos acontecimentos.
ResponderExcluirPor exemplo, ficamos certa vez presos em casa por causa do um boi preto, muito "brabo", que arrebentou a cerca da beira da estrada e entrou no pasto para o lado da casa e ficou alí, acho que por uns dois dias, com muitos vaqueiros, outros gados, carros, etc. Tudo para tentar conseguir tirá-lo dali.
Numa outra vez, voltávamos do povoado numa noite escura e o cavalo do nosso pai assustado e arisco durante a viagem, orelhas em pé, andando de lado(se afastando do barranco) e nosso pai muito quieto, pedindo para ficarmos calados, até a porteira do cafezal, quando tudo se acalmou, inclusive o cavalo. Aí nosso pai explicou que tinha uma cachorro preto, de olhos vermelhos nos acompanhado, no canto da estrada, desde a saída do povoado, e alí na porteira ele sumiu.
💓💓
ExcluirOutro detalhe, você chama de sítio das jaqueiras, mas este nome só existiu anos após termos saído de lá e de Varre-Sai, quando as terras foram vendidas. Eu me lembro de ser parte da fazenda do Jezuíno Ladeira, e perto da Volta Fria, que era o sítio menor (antes deste onde morávamos e que tinha na entrada um Sabugueiro, no qual fizemos algumas "simpatias") onde íamos buscar um litro de leite, fresquinho, tirado na hora, todas as manhãs. Certa vez, quebrei o litro, levei uma coça e tive que ir buscar outro, porque era para as meninas novinhas ainda.
ResponderExcluirPois é! O leite era pra mim!
ExcluirVocês estão muito saudosos e muito detalhistas! Kkkk
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