Meu pai comprou uma casa na cidade. Um sobrado. É! Uma casa bonita, alta, em frente ao Ginásio João XXIII, onde eu faria o Secundário, atual Fundamental 2.
A compra dessa casa eu acompanhei. O Juca, dono do "Bar do Juca", a ofereceu ao meu pai. Inimaginável, achávamos minha mãe e eu, totalmente fora da nossa realidade! E ele, maravilhado com a possibilidade, achou normal e possível, falou conosco - nessa época com onze anos eu participava de todas as decisões dele, negociou 50 parcelas e alguns trabalhos, e lá fomos nós, morar na mesma região que os ricos. Fabiano, o mais novo dos seis, nasceu lá. A casa era estruturada em madeira e alvenaria, com assoalho também em madeira, com dois cômodos embaixo, num funcionava o botequim de meu pai, no qual eu atendia no contraturno da escola, e noutro eu dei aulas de alfabetização para adultos, pelo MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização, criado pelo regime militar em 67 e extinto em 85). Meu pai foi meu aluno, não aprendeu nada comigo, nunca mereci mais que zero em didática.
No assoalho de tábuas ficou marcada nossa passagem para sempre naquela casa: numa noite de pane elétrica na cidade, uma vela foi colocada sobre a mesa da sala de jantar, de forma a iluminar todos os quartos. E esquecida. Ocorre que a vela estava apoiada sobre uma tampa plástica de algum recipiente, as chamas alimentadas e realimentadas pela cera, queimaram o suporte, depois o tampo da mesa, e depois a tábua do piso da sala, que ficou com uma depressão negra de carvão, uma mancha de uns trinta centímetros quadrados, que ainda estava lá quando nos mudamos para Bom Jesus do Itabapoana, em busca de melhores oportunidades de educação e trabalho. A tábua queimada talvez tenha sido substituída, minha memória permanece.
Outra de tantas histórias lá vividas, essa que me dá orgulho contar: a casa era (ainda é) no nível da rua, e atrás dela havia um terreno íngreme, muito íngreme e comprido, de terra infértil, com velhos cafeeiros improdutivos. Uns mil metros quadrados de morro. Meu pai negociou com o lixeiro da cidade, no dizer mineiro de Fernando Sabino, um "burro sem rabo", que ele diariamente descartasse na rua, ao lado da nossa casa, o lixo recolhido numa carroça, nas casas da cidade. E todo fim de semana meu pai transferia o lixo, num balaio sobre os próprios ombros, para o terreno da casa, iniciando do ponto mais alto até o mais baixo, operação que durou meses.
Em algum tempo, não saberia dizer quanto, tínhamos bananas nanica, prata, maçã e da terra, cargas mesmo de bananas, e tínhamos melancia, tomate, batata, chuchu e mamão, e pássaros de todas a espécies, como sanhaços, saíras, sabiás, trinca ferros etc. Flores, frutos e pássaros, que transformaram um organismo morto num paraíso vibrante, a partir do lixo e da vontade de ferro de um homem.
Eu voltei nessa casa há uns anos. Me emocionei demais da conta. Guardo algumas pequenas e vagas memórias de momentos que vivemos lá.
ResponderExcluirEsses textos seus nos ajudam a recordar de alguns. Tem sido gratificante lê -los.
Sem contar do chiqueiro, bem no meio do terreno, onde sempre havia 1 ou 2 porcos, que nos alimentava e que ainda rendiam ao pai alguns trocados para outros insumos.
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