sábado, 7 de março de 2026

CARNAVAL, CONVERSA E CAFÉ.

Domingo de carnaval, hóspedes em casa, mesa do café farta e bem apresentada. 
Como sempre acontece entre amigos, e num café, muita conversa sobre muitos e quaisquer assuntos. 
Num mundo sem fronteiras, onde as informações voam por entre e sobre todos, temas não faltam, desde política e politicagem externa, às politiquices internas; desde o programa nuclear iraniano, às bombas produzidas em Brasília; desde as vaidades de Trump, às da primeira-dama brasileira nas avenidas; desde os nossos cães, aos gatos de minhas irmãs; desde os ministros do Supremo aos juízes, promotores e políticos, já que falando de cães e gatos.
Meu amigo é professor, então tema recorrente é escola. Ele sofre como todos os professores, quer mudar de vida como muitos (alguns estão apáticos); digo que o governo vai melhorar o salário da categoria, e ele é cético: -Disseram de onde virão os recursos?!
Ele pensa em constituir uma empresa pra não depender mais de empregador, quer saber se é melhor que o serviço público. 
Pergunta fácil, resposta difícil. 
Eu já estive nos dois lados. Quando era barnabé, trabalhava mais que todos, não me importavam os outros que não se dedicavam, fazia o meu e um pouco mais, e por isso fui promovido várias vezes, mas nunca estava satisfeito. É que eu não via o resultado do meu trabalho, e o resultado que via era mal utilizado, ou mal avaliado, entende? 
Para a maioria, ser funcionário público, tem a ver com estabilidade, nunca com competência; com direitos, quase nunca com deveres; com quem apadrinhou, nunca com resultados; com cumprir ordens, nunca com fazer o que é certo. Cansei. Fui embora. 
E como foi a iniciativa privada? Bem, primeiro, iniciativa significa não ficar esperando ordens, você mesmo planeja, organiza e executa; e segundo, privada é o lugar pra onde dá vontade de fugir, quando o fiscal bate à sua porta, ou quando você olha para os saldos da conta bancária e do contas a pagar. Vê a diferença básica?  O dinheiro que você gasta é o seu, você mesmo tem que produzi-lo, e, embora seu, terá que prestar contas ao fisco.
Numa empresa própria, você terá que dispor do capital inicial para o desenvolvimento do negócio, até que este produza recursos suficientes a se autossustentar, e cada despesa que fizer - papel, café, água, energia, comunicações, limpeza etc, sairá desse capital integralizado, ou seja, do seu próprio bolso. 
O capital é imprescindível, não lançar mão dele para despesas pessoais, é inegociável.
- Nenhuma vantagem então?   
- Naturalmente que sim, meu amigo, porém sob certas condições: 
O objetivo da empresa deve ser adequado ao momento e circunstâncias;  
Você deverá saber, ou contratar quem saiba, administrar a operação;
Os colaboradores devem ser qualificados e com salários que você possa pagar. 
E, obviamente, você deverá contar com a sorte, que nenhuma ocorrência externa (uma pandemia, uma guerra...) interrompa a operação. 
Um problema: As empresas estão subordinadas a leis e regulamentos que provêm do mesmo governo que regula o serviço público, ou seja, quem administra mal as empresas e instituições a seu cargo, é também quem estabelece regulamentos para a administração privada, fazendo-os tão confusos e intrincados, quanto suficiente para provar que somos tão incompetentes quanto ele.
Ainda assim, seu negócio, sob condições normais de temperatura e pressão, tende a prosperar, te trazer muitas vantagens, e dependendo tão somente de você mesmo, sem que precise prestar contas a uma infinidade de superiores hierárquicos. É só trabalhar, honrar os compromissos com empregados, fornecedores e o fisco, e aproveitar o resultado. 
A vantagem é não depender da viúva para as decisões, a desvantagem, é não ter a viúva para assumir as consequências de eventuais decisões equivocadas, como o governo (a viúva) fez com a Caixa, com os Correios, BRB e tantos outros.
A conversa atravessa a manhã: todos à mesa buscam alternativas de sobrevivência digna no país em que vivem, enquanto o presidente antecipa a campanha eleitoral no carnaval das avenidas do país do qual vive,  e gastando  dinheiro público.
Tenho um amigo advogado, lembrei, bom advogado, que ganha dez mil reais mensais para patrocinar cerca de trinta processos! Enquanto isso, a imprensa noticia que parentes das maiores autoridades do país, são contratados por muitos milhões, e por empresas suspeitas de irregularidades ou que têm interesses no governo, o que, por si só, já configura grave irregularidade.
Veja, amigo, como pode ser difícil a iniciativa privada, e como pode ser lucrativo o serviço público, tudo a depender dos valores e princípios, do caráter do indivíduo, ou da falta de.
Estou me estendendo, eu sei, já antecipara que a resposta seria difícil. 
Para quem é mais conservador, não tem simpatia pelo risco, não tem vocação para self-made man,  o serviço público pode ser mais adequado, especialmente se, como diria um ex-presidente, para "se manter dentro das quatro linhas da Constituição". Fora, seria caso de polícia, e ouvimos muitas sirenes a tocar por aí.
Se você, porém, tem o sonho de empreender, acredita em si mesmo e está preparado para a possibilidade do insucesso, vá em frente, você tem muita chance de o sucesso lhe sorrir. Mark Mason escreve: "...ninguém se torna bem sucedido, se não avaliar o risco, a incerteza, os muito fracassos, a quantidade insana de horas dedicadas a algo que possa render absolutamente nada".
Por outro lado, parafraseando a cantora Iza, é preciso ser forte, é preciso ter foco, é preciso ser foda e não fugir à luta, e ter fé pra enfrentar esses filhos da puta. 
Eu quis ser empresário desde o então primário do colégio, quando me disseram sermos o país do futuro. Sessenta anos depois continuamos assim, acreditando, enfrentando e sobrevivendo, apesar deles, tão adequadamente lembrados na música.
O futuro do Brasil depende de que esqueçamos nossas dúvidas, busquemos nossos sonhos, e deixemos de esperar que o governo faça a nossa parte, eles não fazem nem a deles.

2 comentários:

  1. Texto muito agradável de ler. Dá para perceber o cuidado em transformar uma conversa simples de café em uma reflexão sobre trabalho, escolhas e responsabilidades. Parabéns pela clareza e pela forma elegante de registrar esse tipo de diálogo. Conversas assim fazem falta no cotidiano, especialmente para os mais jovens, que muitas vezes têm poucas oportunidades de ouvir experiências acumuladas ao longo da vida. Esse tipo de troca entre gerações é sempre uma fonte rica de aprendizado e reflexão. Que venham outros textos como este.

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