Tenho escrito alguma coisa sobre o meu mundo, muito escrevi com o Apolo deitado ao meu lado, e quantas vezes parei para fazer-lhe um carinho, ou ele me obrigou a parar!
Dias atrás, comecei um texto, de novo com ele, mas desta vez sobre ele. Queria registrar uma história de amor que só eu e ele, talvez a Valeria, conhecíamos.
Mal sabia eu que essa história teria começo, meio e fim, e um fim muito mais próximo que o esperado, e muito, muito mais doído.
Pra que rimar amor e dor? cantou o poeta. Eu acho que andam juntos, mas vou rimar escrever pra não morrer, para desabafar. O início do texto era assim, o fim, o universo escreveu:
Ele chegou numa noite escura, por um amigo trazido. Brilhavam os olhos pequenos e espertos, mas ele parecia aturdido. Será que vai gostar de mim? Ou vai ser um estresse? O amor é tão estranho! Acontece sem avisar, muitas vezes nem acontece!
Dia seguinte o sol nasceu num céu azul, e a paz parecia se impor. Mas ele não estava nessa vibe, os olhinhos não tinham o mesmo tom.
Cheguei o mais próximo que pude, um carinho ofereci. Ele ficou na solitude, não pareceu reagir. Me aproximei novamente, quando o trabalho permitiu, escolhi palavras doces e os braços estendi. Ele reclamou, e me arranhou. Mais tarde, pensei ler nos seus olhos um desejo de... nem sei. Com coragem fiz um carinho, minha mão ele beijou. E uma relação de amizade, aí então começou. E como é próprio das relações, seja de humanos ou animais, ora é bom, ora ruim, mas sempre se quer mais.
Com ele valia tudo, não precisava muito não, não era exigente com comida, gostava de maçã e mamão, da raçãozinha de cada dia, até comia pimentão.
Cidadão do mundo, conosco por todo lugar viajava, e só ficava bravo, quando um estranho se aproximava. Era o guardião da Valeria, ela era a sua deusa adorada, olhinhos fixos na sua presença; na ausência, fixos na entrada. Após o jantar, para o sofá, só esperava a TV ligar. E a entrega era total. Dormia de roncar, sobre nós ou entre nós, não gostava de jornal,
E ia sozinho para sua cama, quando passávamos do habitual, mas se deitava no tapete, até que fizéssemos igual. Todo dia pedia carinho pela manhã, primeiro a ela, depois a mim, seu maior fã.
Arrumamos uma amiga pra ele, para a Laika é que fez mais bem, ele tinha a nós sempre presentes, ela não tinha ninguém.
Os dois brigaram no início, era da índole dele proteger, mas depois ficaram inseparáveis, era brincar e correr.
Ele, porém, muito agitado, nisso se parecia comigo; pulava, gritava, acariciava, só não era de muitos amigos. No mesmo tom recebia e se despedia, não gostava que fossem embora, zangava com Arthur e Leninha, dentro de casa ou lá fora. Embora pequeno, era ágil, só se chegava quando ele queria. Valeria se desesperava, quando os carros ele perseguia. E ela reclamava comigo, por chegar muito rápido; eu dizia que ele não era burro, não seria tão descuidado.
Até que ontem, quando eu chegava, alegre pra contar uma novidade, ele correu para mim, eu não o vi, e... nosso mundo caiu.
Não pensei que fosse possível sofrer tanto assim, não sabia que tanto espaço ocupava um animalzinho tão pequenino! Sabia, mas não sentia, que a vida é frágil, e que pode mudar em um segundo. Sem recurso. E agora tenho que viver com a saudade do meu amigo, e com a culpa por ele e pela dor da Valeria.
A Rafaela, que chorou muito, abraçada a mim e à "vóbis", me falou hoje: "Tio Ando, não fica triste. Sabe o que eu fiz ontem? Eu pedi a Deus pra me mostrar o que fazer com a minha tristeza. Ele disse pra eu jogar pra cima, pro universo. Eu fiz e perguntei: Deus, e agora? E ele disse: Agora, caminhe!".
A Rafa tem sido, do alto dos seus dez aninhos, o nosso suporte quando a noite cai; a Laika, uma golden que trouxemos do Rio só por estar doente, amiga e carinhosa, ocupa um pouco das nossas mãos tão carentes de fazer carinho. Nada acontece por acaso, tudo e todos têm, neste mundo, a sua função, e aquele leãozinho chatinho e valente, certamente cumpriu a sua com louvor. Que Deus o receba no céu dos cães... Quanto a mim, ainda muito tenho que caminhar.
❤️❤️🙏🙏
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