segunda-feira, 27 de outubro de 2025

PALHAÇOS, PROFESSORES E BOMBEIROS

Reunidos na cozinha, ao redor do fogão, como fazem todas as noites, a família conversa sobre o dia, e os dias. Numa dessas ocasiões o filho se sai com essa: "Pai, quando crescer quero ser palhaço." Todos riem, o circo estava na cidade. Noutra família, os pais querem saber o que a filha quer ser  e ela responde, sem exitar, que, bombeira. Também aqui riram. O uniforme, e os veículos vermelhos e com sirenes, chamam mesmo a atenção de todos, especialmente dos pequenos. 
O Colégio Rumo Certo, onde ambos estudam, promovia anualmente um teste vocacional, traçando os perfis dos alunos. Não apareciam palhaços, às vezes alguns queriam ser militares, mas eram mais comuns tendências para medicina, magistério, engenharia, veterinária, e alguns, ainda indefinidos. 
Numa outra família e em outro momento, o filho surpreende a mãe, ao pausar o videogame pra dizer que queria sair da escola e aprender a programar jogos de computador - "Renda certa e rápida, mãe, e é um trabalho "da hora"! "Sua irmãzinha, que o ouvira do quarto onde estivera desde que voltara do colégio, gritou que também não queria mais estudar, ela já ganhava alguns trocados divulgando produtos e se apresentando como modelo nas redes sociais, e com mais tempo disponível, certamente ganharia mais dinheiro. Os pais se entreolharam pasmados, talvez nem soubessem que sua filhinha de dez anos, proibida até de cantarolar uma música dita secular (somente gospel era permitido), estaria posando, na privacidade do seu quarto, para milhares ou milhões de estranhos, sem qualquer privacidade e sem controle. 
O Colégio Novo Rumo realizava, naqueles dias, outra rodada de pesquisa e estudo com seus alunos, buscando ajudá-los a identificar as suas aspirações e orientá-los o quanto possível quanto às carreiras profissionais para as quais tinham perfis ou tendências. O estudo demonstrou que poucos gostariam de ser médicos ou engenheiros, que nenhum queria ser professor, que todos queriam exercer funções e profissões que trouxessem resultados imediatos, e que tivessem o glamour que as redes sociais oferecem. 
Enquanto o nosso colégio deixava de ser Rumo Certo para ser Novo Rumo, mas com a meta de que o novo também fosse o certo para os novos tempos, ser médico ou engenheiro passou a ser menos interessante, e ser professor (nem pensar!) deixou de ser uma profissão admirada e almejada pelos jovens, na medida em que mal remunerada e sem apoio dos setores público e privado. 
Não temos mais jovens querendo ser bombeiros, a geração Z não quer riscos e stress. E não temos mais circos pelas cidades. Mas temos nós, os adultos, muitos de nós que ainda acreditamos que governos podem substituir as famílias no dever sagrado de educar nossos filhos. Aos governos cabe ofertar a educação, mas às famílias compete fazer a sua parte, é preciso trabalho, unido e persistente, em prol de que a educação seja efetiva e eficaz. É preciso derrubar o mito da educação para todos representada por promoções anuais consecutivas, pela chantagem da frequência em troca de refeições, pela promessa às famílias de que nossos filhos sairiam de escolas gratuitas com um diploma na mão e um emprego a esperá-los na esquina. 
Isso é um engodo, um ledo engano. Empresas não contratam diplomas, mas profissionais. Profissionais dependem de bons professores para se formarem. Alunos não querem ser professores mal remunerados. Professores, obrigados a dupla e até tripla jornada, e tendo que promover alunos despreparados, não têm tempo e nem interesse em se aprimorarem.  E o círculo vicioso se fecha, sem deixar chance à esperança.
Eu tenho uma amiga, muito amiga, muito antenada, muito preparada e muito crítica - feliz de quem tem! E ela me diz, quando lê um texto meu (sempre lê e sempre diz), que eu reclamo e exponho as mazelas, mas não apresento soluções. E é assim mesmo, eu sei. O que eu não sei é justamente a solução!
Ontem, sábado, num curso de Compreensão Leitora que nosso colégio oferece aos professores, com a Prof Carmem Lúcia Goebel, o professor convidado Alfredo Cunha, nos apresentou ao ditado africano "É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança". Nessa grande Aldeia Brasil, o povo não se sensibiliza pela educação, os políticos não priorizam o povo, os governos não governam para o povo, educação é só mais um serviço dentre os demais tão mal prestados, e o padrão se estende às demais camadas sociais, onde empresários nunca podem ajudar, pais se confortam culpando o governo, e até professores estafados, já não reagem mais, e seguem a onda. Como Pilatos, lavamos as mãos, e assim, abandonamos as gerações futuras. 
Desculpe amiga, mas não vejo solução mesmo! Seria necessário que a aldeia inteira se unisse, ênfase para "inteira", e que todos trabalhassem para e pela educação, pensando no bem de todos, não de uns. Mas como isso iria acontecer, se mesmo quando um ou outro ajuda altruisticamente, é visto com desconfiança, porque não estamos acostumados à ajuda sincera, não movida por interesses mesquinhos? Quem precisa de ajuda desconfia de quem quer ajudar, e quem se aventura a ajudar, se decepciona e desanima, e novamente o círculo vicioso se fecha. E a esperança perde novamente.
Quando eu crescer, gostaria de aprender.

2 comentários:

  1. Não, a esperança não pode perder. Ela precisa continuar, ainda que, muitas vezes, nos vejamos "nadando contra a maré".

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  2. "Não nos afastemos. Vamos de mãos dadas."(Drummond)

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