- Vamos voar de balão?
Por que não? eu pensei.
- Vambora! Veja como funciona.
Ela viu.
- Facinho! Compra pelo site. Saída às quatro e trinta. Setecentos reais... por pessoa.
Eu repensei. Madrugada, setecentos...
-Acho que não tô a fim. Vamos fazer outra coisa.
Chegáramos a Pedra Azul, no Espírito Santo, no dia anterior, circulamos pela vila, jantamos muito bem, dormimos em meio ao silêncio de uma pousada cercada por plantações de legumes, acordamos com o canto dos pássaros e o brilho do sol, que nos convidavam a andar pelo Parque Estadual da Pedra Azul, fazer as trilhas e tomar banho nas piscinas naturais (há 1500 metros de altura), de uma água geladinha que sabe Deus como, nasce lá em cima. Foram quase cinco mil metros de caminhada, incluindo uma subida íngreme, uns trezentos metros a uns quarenta e cinco graus de dar vertigem, apoiados em cordas e degraus fixados na rocha. Aventura o bastante, pra não precisar voar de balão, né não?!
- Não, já comprei o vôo, sairemos amanhã às cinco!
Ela decidiu, e eu...
- Bora lá!, mas... às cinco?!!!
Às cinco o balão estava no chão, deitado. Ventiladores o mantinham semiaberto o suficiente para permitir que uns quatro técnicos entrassem e fizessem a checagem e ajustes em cordas e equipamentos. Fazia frio. Os balonistas iam chegando. Chegou uma garota aniversariante, dez ou onze, não perguntei, mas que parecia acostumada a só ouvir "sim", a fazer só o que queria, como e quando queria. Começou entrando no balão em manutenção. Ali já vi que teríamos problemas! E A Turma do Balão Mágico cantava.
Nem precisávamos acordar tão cedo, só lá pelas seis e meia fomos convidados ao embarque!
Um cesto com cinco divisões, o piloto e os equipamentos na central, e três pessoas em cada uma das quatro outras. A aniversariante acabou indo junto com o piloto. Ela dormiu em meio aos botijões de gás, entediada com o nascer do sol, as miríades de cores, o serpentear de rios, estradas e rotas, os pequenos detalhes das imensas rochas, a graça dos animais correndo nos pastos, os muitos lagos nos cumes das montanhas... as montanhas.
O vento descansa, o balão fica parado, e, a mil metros, a menina dorme, e os adultos mais uma vez acordam para a nossa insignificância no universo.
Choque de realidade, o piloto inicia a descida.
Você sabia que o balão só é controlável quanto à subida e descida, ou seja, na verticalidade? Que no sentido horizontal, ele vai para onde o vento soprar? Eu não, como também os colegas de vôo. Então, pousamos num pasto, no alto de um morro, sem estrada à vista. E com o cesto já em solo veio a outra surpresa do dia: nos informam que, enquanto o balão está em pé, uma corrente mais forte de vento pode fazê-lo arrastar e derrubar o cesto, então, o piloto tem que antecipar o episódio de maneira controlada, o que implica todos os passageiros se prepararem para deitar de costas simultâneamente com o cesto, uns sobre os outros!
Com as costas no capim molhado do sereno da manhã, minha mulher deitada sobre mim, e três outros passageiros acima de nós, me lembrei da música, adivinhem! "Super-fantástico, o balão mágico!"
É assim mesmo, nos disseram, a equipe de terra persegue o balão enquanto ele viaja pelo ar, e a meta é chegarem junto com ele ao local do pouso, o que nem sempre acontece... como desta vez.
Ah, quase me esqueço da aniversariante: ela dormiu no céu, sonhou que voava, acordou na terra no meio de um pasto, e de cabeça para baixo. Ela achou graça do presente.
O bem-te-vi cantava, e Cecília cantaria de novo, "Bem-te-vi que estás cantando nos ramos da madrugada, por muito que tenhas visto, juro que não vistes nada."
Caraca! Acho que não queria estar nessa aventura, não! Que loucura! Valeu a paisagem, tenho certeza, mas o mais... Será?! Eu não queria experimentar! Ainda bem está contando o passeio! 🤦
ResponderExcluirKkkk. Acredite, se houver oportunidade, você experimentará. Eu repetiria com prazer, noutras paisagens, claro.
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