Nova Friburgo: Aconteceu que deleguei a um faz tudo que trabalhava comigo já há uns dois anos, a tarefa de entregar um cheque a uma pessoa que me prestara serviços de terraplanagem. Uns meses depois o dono da máquina, que vinha tentando me encontrar já há muito, esteve em minha casa a me cobrar pelo serviço, ele não recebera o meu cheque! Acertei as contas com o meu empregado, despedi-o sim, mas sem lhe dar "justa causa", e mais tarde o reempreguei, numa segunda chance. Um tempo depois, meu irmão Fabiano o acusou de ter-lhe roubado um rádio antigo que estava guardado no sítio. Ele não tinha provas, e eu me aborreci e o proibi de dizer isso apenas baseado na história antiga. Visitando, porém, uma loja próxima à nossa casa, Fabiano quase grita, "Olha o meu rádio!". Eu teria brigado novamente com ele, não fosse o dono da loja tê-lo ouvido, e, adiantando-se, ter dito que o comprara justamente do dito cujo! Meu irmão recuperou o rádio, o meu amigo da loja ficou com o prejuízo (afinal também ele era culpado, não se compra objeto sem origem legítima), e o empregado ficou desempregado. Acredito que aprendeu a lição. Certamente o veria de novo, eu sabia, e provavelmente voltaria a ajudá-lo. Encontrei-o semana passada. Ele está mais centrado, mais consciente do seu papel na família e na sociedade, merece uma terceira oportunidade. Sempre é tempo de recomeço.
Rio de Janeiro: Um colega de trabalho que se tornou meu amigo, e amigo da família, veio mais tarde a ser meu sócio, a meu convite, numa empresa que constituímos. Trabalhar não era muito o seu forte, não o trabalho como eu entendo; ele era mais de elocubrar, e suas elocubrações nem sempre eram objetivas e factíveis. Para desfazer a sociedade, ajustamos um preço pela sua parte, parcelado em trinta e cinco parcelas. Ele se mudou para o Sul, e, trinta e quatro meses depois sua mulher me ligou pedindo para eu recebê-lo de volta, ela não o suportava mais dentro de casa sem ter o que fazer. Não sei como se suportaram nos quase três anos anteriores nos quais também não tiveram o que fazer, mas, claro, recebiam os valores mensais que eu pagava, mas esse não é o foco da nossa história. Ele voltou, fiz-lhe um salário, e trabalhamos juntos por uns dois anos de dificuldades de toda sorte, falta de sorte ser empresário no país das dificuldades. Ele recebia todo mês, mesmo que eu próprio não recebesse, porém, ainda assim, constituiu em segredo uma empresa como a minha, atraiu os meus vendedores, e, exímio conhecedor de informática que era (só não era exímio em ética), copiou o meu cadastro de clientes. Em dois anos ele faliu e sumiu, talvez reapareça algum dia. Eu o receberei, acho. Não sei se ele aprendeu, mas eu aprendi que sempre é hora de recomeçar, ainda que não seja Natal.
São Paulo: Eu trabalhava numa importadora. Nacionalização de mercadorias, cotação do câmbio, invoices, etiquetagem, cadeia de impostos, formação de preços, lotes e validades, eram o assunto e a preocupação de cada dia. A responsável por parte dessas atividades, vez por outra, com mais frequência do que a expressão faz notar, cometia erros que prejudicavam a operação. Seria só demitir? Não, claro que não! Sempre odiei demitir, prefiro conversar, treinar, voltar a conversar e a treinar. Certa vez, sem desembaraço após quase sessenta dias do desembarque dos produtos, por conta de greves sequenciais na alfândega, novos erros da moça agravaram em muito o quadro, já negro. A tensão acumulada, me fez gritar com ela, num desabafo impensado, ao qual ela respondeu também nervosa, dizendo que ia embora, que isso já era assédio. Eu já sabia, mesmo enquanto me exaltava, ter errado na medida, e que nada justificava o destempero que tomou conta de mim. Ato contínuo, então, no mesmo tom e volume, e ainda no meio de todos os colegas, falei com ela, reconheci o meu erro e me desculpei; sem conseguir evitar, porém que ela deixasse o trabalho. Enviei-lhe mensagem depois, lamentando o que aconteceu, mas ela nem mesmo leu, me bloqueara, provavelmente. A história me incomodou por meses, até que, neste fim de ano, ela nos visitou, me abraçou, e pediu, vejam só!, ela me pediu desculpas por não ter me ouvido.
Relembrar essas vivências me faz refletir que sempre é tempo para um recomeço, além de ser mais fácil recordar os erros - erramos muito menos do que acertamos, o que é uma boa notícia ; e mais produtivo - aprendemos mais com erros e derrotas do que com acertos e vitórias, o que também é bom. Mas, "Cautela com isso" alerta Mário Sérgio Cortella, "Não é o erro, é a correção do erro que ensina". Se não corrigimos, não aprendemos.
Aproprie-se de um bem alheio, e mais cedo do que tarde perceberá que não lhe serviu de nada, e a mancha no seu currículo e na sua consciência lhe assombrará por toda a vida. Perdoe quem te ofendeu e terá satisfação completa, palpável mesmo no corpo, sentida na alma; e a alegria dessa ação o levará a repeti-la, lhe dará segurança e autoconfiança nos relacionamentos, e poderá contagiar as pessoas ao seu redor, alimentando uma corrente do bem.
Roubar esperança, confiança, autoestima, alegria, motivação, pode ser um erro irreparável. Agradecer pelo que temos, ajudar como pudermos, perdoar pelo que nos fazem, perdoar-nos pelo que fazemos, compreender os que não veem, e perceber o que não vemos, são lições que a vida ensina, quem tem olhos que... viva.
Ou perdoamos ou revivemos mágoas, a danada da " má água" que só adoece!
ResponderExcluirQuantas vivências fortes, hein?! Uau!
Essa que envolve o Fabiano é até engraçada de se ler! Eu não conhecia!
Como a escrita é importante! Eterniza momentos!