Noutro dia um amigo que leu alguma coisa do "Fragmentos do meu Mundo", me perguntou se meu pai tinha sido mesmo esse sujeito especial que eu pintava, se tinha de fato esse carisma, essa vontade inabalável, essa personalidade forte, essa generosidade irrestrita, se era mesmo capaz de, sendo analfabeto, ensinar alguém a ler.
Percebi que poderia estar transmitindo uma ideia errada de meu pai, e resolvi tentar corrigir isso, sabendo já que teria dificuldades para colocar em palavras questões tão subjetivas, que mesmo eu, que convivi com ele, não consigo entender direito.
Dizemos, em tom de critica, que as pessoas quando morrem "viram santas", querendo dizer exatamente o contrário. Eu, porém, começo a pensar que, por um certo ângulo, essa afirmativa tem um quê de correta. Quando uma pessoa faz a passagem, eu suponho que seja como num teatro, descida a cortina o que resta é a realidade. Como se um espírito de luz descesse, uma clarividência se instalasse, e toda a verdade se impusesse. O indivíduo não se transforma em santo para os que continuam vivos, porém, ele agora sabe, e sem margem de dúvidas, o que fez de certo e de errado, e por que o fez. Não sei se "vira santo", evidente que não sei nada, mas acho (e torço por isso) que talvez lhe reste uma oportunidade de se arrepender dos erros, negociar, talvez, o perdão em face dos acertos, especialmente se existir um certo equilíbrio entre esses atos. Fantasioso, né? Eu sei, mas esperançoso também.
E o que meu pai tem a ver com isso, uma vez que estamos falando de histórias dele enquanto vivo entre nós? Pois é, eu penso que quando alguém morre, nós que ficamos por aqui, também vemos e revemos em retrospectiva, como num filme, num único episódio, tudo o que o sujeito fez ou deixou de fazer pela vida, e, como todos somos um pouco juízes, nós decidimos se foi ou não uma boa e digna vida, se ela foi ou não positiva, se os erros foram compensados pelos acertos, e então, pra nós, o indivíduo que morre pode ou não "virar santo".
E agora sim, por essa perspectiva, eu, juiz, julgo meu pai, "santo". Para o mal e para o bem, ele foi um indivíduo normal, desses que saem de madrugada para o trabalho e retornam só à noite (quando não trabalham dias longe de casa), que se irritam com as coisas injustas (por vezes também com as justas), que bebem socialmente (algumas muitas vezes além do conveniente), que têm paciência com os outros (muitas vezes mais que com os seus), que são generosos com os necessitados (algumas vezes por conveniência), que não desejam mal a ninguém (pelo menos não "de coração"), que protegem os mais frágeis e se compadecem dos que sofrem, que vivem e morrem pela família, enfim, um ser humano como eu, e como vocês, minha meia dúzia de três ou quatro eventuais leitores. Nós vivemos as nossas vidas aprendendo a viver, tentando sobreviver enquanto aprendemos, e cuidando dos nossos; e se temos boa índole, bons exemplos, bons pais e professores, e boa sorte (por que não?), fazemos o bem, buscamos corrigir o mal que também fazemos, e tentamos superar os obstáculos que a vida nos apresenta a cada instante e até o instante final; e depois dele, o legado é o conjunto da obra, a conta corrente cujo saldo espelha o resumo de uma vida.
Tomara, quando a nossa cortina descer, tenhamos algum saldo positivo nesse conta corrente, de forma a que, quem sobreviver a nós não precise ouvir, numa risadinha irônica, "Só por que morreu, não virou santo!".
Amei o texto! Fez-me lembrar que na minha família o ditato é mesmo literal, sem nenhum julgamento com saldo: Morreu, vira santo! Das memórias são varridas todos os erros e equívocos cometidos. Como se a pessoa tivesse realmente tido uma vida de santo, não importando quão longe disto ele ou ela tenham vivido. Qdo pequena eu não entendia, depois de adulto finjo que entendo. Faz tempo que não celebro mais este domingo dos pais. Seu texto resgatou-me algumas lembranças de como era. Que tenha sido um dia feliz para vc!!! Gratidão pelo texto!!!
ResponderExcluirOi Fátima, que bom vê-la aqui, você que me incentivou a ter esse "aqui"! Obrigado pelo comentário e pela generosidade.
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