quarta-feira, 3 de julho de 2024

VOANDO SOBRE RODAS

Meu pai tinha crédito por onde passava, e eu me aproveitei disso quando tinha algo como 15 anos. Rubens, o fotógrafo da cidade, músico da Lira Santa Cecilia, também era o gerente (seria o dono?!) da única loja de móveis e eletro da cidade, e ele me vendeu, às vésperas de um natal dos anos 70, uma bicicleta Caloi, verde e linda, por seiscentos cruzeiros, em trinta parcelas de vinte cruzeiros cada.
Nunca ganhara um presente de Natal que não fosse alguma roupa ou calçado, e decidi me dar um presente, que pagaria com os "ganhos" do botequim. Só não combinei com os russos, no caso o meu pai, que levou um susto ao chegar do trabalho e me ver desfilando a verdinha na rua, para os vizinhos curiosos.
Até hoje não entendo como ele não brigou e me fez devolver a "máquina", afinal o botequim era dele; acho que, na verdade, ficou orgulhoso da minha iniciativa e do crédito, que sabia não ser meu.
Ganhei a bicicleta, a responsabilidade pelos pagamentos que a inflação "derreteu", a liberdade de poder trabalhar, comprar e pagar, e, autêntico filho de Zé Sobreira, com o hábito de fazer tudo muito rápido, ganhei também o agravamento do risco por estar sobre as duas rodas da verdinha.
E foi assim que atropelei um mecânico que saía por debaixo de um caminhão, foram duas costelas fraturadas, três pontos na cabeça e quinze dias sem trabalhar, que meu pai foi obrigado a indenizar por ordem do Juiz de Menores.
E foi assim que deixei meu irmão menor, hoje, o maior, Fabiano, debaixo de uma camada de poeira, uns cem metros atrás. Era um anjo de cabelos dourados e cacheados, que estava na garupa, e os vizinhos me alertaram da queda. Deveria ter uns 2 anos, se não menos, era só poeira e arranhões, o anjinho. 
Anos antes, numa bicicleta velha, sem garupa, freios e paralamas, meu irmão Flávio teve mais sorte, nas diversas vezes em que, sentado no quadro, ele pilotava na descida do morro do hospital, enquanto eu pedalava apoiado nos ombros dele. Nunca caímos. Deus protege as crianças e os doidos... e as crianças doidas.
Anos depois, recém chegado a  Bom Jesus do Itabapoana que tinha escola de segundo grau (atual Ensino Médio), indo para o Colégio Padre Melo, no meu primeiro dia de aula no Curso Técnico de Laboratório Médico, uniforme novo que o alfaiate havia entregue no dia anterior e que meu pai pagaria em prestações, cadernos debaixo de um braço, caí da bicicleta na rua calçada por paralelepípedos (não consigo pronunciar isso direito!), rasguei a camisa, a calça, o quadril, amarrotei os cadernos espiralados cuidadosamente encapados, voltei pra casa derrotado, e frequentei todo aquele ano letivo com a camisa remendada acima do bolso, e a calça na altura do quadril. Meu irmão Flávio escapou dessa também. O aviso divino era só pra mim: Te cuida! 


3 comentários:

  1. Essas me lembro muito bem!!! também lembro daquela vez em que você, descendo o morro em frente ao bar do Juca, virou o pescoço para olhar ao lado e uma "bicho" entrou no seu ouvido...

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  2. Lembrei da minha monareta... que só tive em sonhos...

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