Emprestei esse termo de um cronista que gostava de ler na Revista Crusoé, o Ruy Goiaba, ele escreve livre, fluido, crítico e com humor. Ele criou o termo e a própria expressão "goiabice do dia", pelo menos só dele que li. Lembrei dele hoje, quando roubei duas goiabas de uma goiabeira que nasceu na frente da minha casa. Eu cuidei dela por uns sete anos, e ela já produz há uns três. Em Friburgo, porém, as fruteiras não produzem muito por causa do clima frio, então tenho que competir com os pássaros. Essas que colhi, duas frutas grandes e lindas, ainda estavam com as cascas verdes, porém, por uma janela aberta pelos pássaros mais ansiosos que eu, via-se a polpa vermelhinha. Me senti um pouco mal por afanar-lhes as goiabas (foram eles que plantaram), então troquei por duas bananas amarelas e apetitosas, acho que eles ficaram satisfeitos, e eu não terei dor de barriga.
Na roça dos meus seis a doze anos havia goiabas por toda parte, brancas ou vermelhas por dentro, verdes ou amarelas por fora, com bichos e sem bichos, o que nem fazia diferença, e as sementes sumiam nas cáries, essas suficientes em tamanho e número para aquelas se esconderem. Creme, escova e fio para higiene bucal, eram artigos desconhecidos, como também a própria expressão "higiene bucal"; o dentista só era procurado quando o dente doía, e ele não se fazia de rogado, extração era a regra.
Hoje, enquanto como as goiabas das aves, sem nenhuma preocupação com as cáries, que não se criam em dentes implantados, recordo minha infância, a fartura de frutas e sonhos, de pássaros e alegria, de animais e brincadeiras, de irmãos e jogos, de família e amor. Eu subia quase todo dia numa das duas enormes e generosas jaqueiras do nosso quintal, para me esconder de meu irmão ou mesmo para pensar coisas importantes e sérias que um garoto de oito anos pensa. Eu ficava lá por muito, muito tempo, até dormia sentado no alto do tronco, no qual acompanhei por meses o crescimento de uma jaca, desde que uma delicada florzinha, até se transformar numas das maiores frutas que já vi, talvez mesmo a maior. Minha ansiedade, sempre presente, não me permitiu aguardar o tempo certo, e eu colhi a fruta ainda verde. "Colhi" é força de expressão - seria necessário mais de um adulto para isso - de fato eu a derrubei, e depois de vários meses zelando pela sua segurança, eu a perdi.
Lembrar da infância, dos cavalos de pau, das bolas de gude, dos sonhos que, de tão distantes, pareciam impossíveis, é tão bom quanto comer goiabas fresquinhas, colhidas do pé, sob o canto alegre dos pássaros, mais generosos que nós, e faz pensar que o hoje que vivo, foi um sonho há meio século, que estava de fato distante, mas que não era impossível, só distante.
Hum! Goiabas! Melhor que goabices! Ou não?!
ResponderExcluirDas jacas, me lembro bem do visgo que ficava nas mãos e do docinho dos favos. E das armadilhas que Tio Miguel fazia para pegar passarinhos.
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