sexta-feira, 7 de junho de 2024

CULÊ, CULÊ, CULÊ!

Meu pai criava porcos e galinhas, para ajudar na economia doméstica. 
Eu gostava de vê-lo, ou ouvi-lo, chamando as galinhas pela manhã (prrrruuuuuu! prrrrrruuuuuu!), e elas apareciam por entre as plantações de café, banana, cana e flores, correndo estabanadas e famintas. 
Em seguida ele alimentava os porcos no chiqueiro, porém lá, quando ele chamava os bichinhos (Culê, culê, culê!) vinham os porcos, mas também as galinhas, em busca de um petisco de sabor diferente. E ele dizia, rindo: - Culê, culê, tudo é porco!. 
Quantas vezes eu acordei com os chamados do meu pai! 
Em casa, quando um irmão tentava culpar o outro por uma peraltice, ou no convívio externo, quando precisava avaliar o conceito de alguém, quase sempre a frase se ouvia, nem sempre entendida. 

A política, com razão, ganhou sinônimos negativos desde os tempos de Rui Barbosa; políticos a praticam em próprio proveito, e prejudicam os poucos (acho que ainda existem alguns) que honram o mandato popular e que são reduzidos ao mesmo denominador.  Também professores, padres, pastores, policiais, médicos e outros profissionais que lidam com seres humanos em situação de vulnerabilidade, inclusive e especialmente crianças, desonram seus ofícios ao serem omissos, ou, um tanto pior, maliciosos no trato com alunos, fiéis, pacientes, cidadãos, e, de novo, lançam à lona o conceito e o orgulho dos profissionais dignos de assim serem chamados. 

Alimentar os animais pela manhã era, na minha infância, uma tarefa deliciosa. Sessenta anos depois, observar os caminhos que estamos trilhando, me tira o apetite. Meu pai, que era um observador das cenas da vida, já dizia e hoje repetiria: Culê, Culê, Culê, tudo é porco!

2 comentários: