sábado, 20 de setembro de 2025

MUDANDO DE CRISE

Oi gente, depois da crise dos presidentes, minha turma tá um pouquinho mais tranquila. Mas agora é fim de ano, começa o zumzumzum  sobre outras escolas, a crise das transferências. 
Eu acho isso muito triste, mudar de escola, de amigos, de professores, de caminhos...  e não é só na escola, também em casa já vi minha mãe conversando com outras mães sobre isso. Minha mãe não quer que eu saia, mas ela ouve todo mundo. É até perigoso, vai que ela mude de opinião, sem me ouvir! Eu também tenho meus direitos, ou não? 
Uma amiga da minha mãe, essa é amiga mesmo, nem é vizinha, falou que vai tirar a Linda da escola porque um garoto a incomoda sempre, aliás, ele incomoda todo mundo. Ah, vocês sabem o que é bulliyng, acho que é assim que se escreve. Minha mãe disse, ué, mas a Linda é tão esperta, ensina ela a se defender, ué! Você já falou com a direção? 
A mãe da Linda falou que sim, e que a diretora já chamou os pais dele várias vezes e exigiram que ele fosse levado ao psicólogo, parece que é lei, e enquanto isso, ele vive indo para a secretaria por mal comportamento. Até os pais dele estão querendo transferi-lo, mas eu acho que isso não resolve nada, e fico triste também por isso, ele é um garoto legal, que sabe conversar e faz a gente rir. Ele só tem um defeito grande: acha que mulher não é igual a homem, tem que ficar na cozinha; não sei onde ele aprendeu isso, o pai e a mãe dele trabalham, os dois! E por que será que ele não me incomoda? Vou conversar com a Linda, não quero que ela saia, gosto de conversar com ela no recreio e na educação física, quando às vezes juntam as turmas. 
A mãe dela disse que reclamou também com a diretora por que mudou de professora, isso é chato mesmo, mas às vezes é muito bom também. Fiquei pensando que, talvez isso aconteça em todas as escolas, afinal, se uma professora saiu daqui e foi pra outra escola, é porque, de lá também, saiu outra professora, que deve ter ido pra outra escola onde tinha vaga, e ouuutra  turma ficou triste. Acho que é normal, né não? 
Eu estava pensando isso, ouvindo o tagarelar das duas, quando minha mãe falou: Ô Ligia, se você se preocupa tanto com a Linda e acompanha todos os passos dela, como eu faço com a minha, por que não ensina ela a se defender do garoto e chama a diretora e a coordenadora pra uma conversa séria, e até junto com os pais do garoto? Você acha que lá em Nova Friburgo você vai ter a tranquilidade e os resultados que tem aqui na nossa escola, onde a Linda cresceu tanto, onde nós conhecemos todo mundo, as turmas são muito menores do que nos outros colégios, e não tem essa estrada perigosa e engarrafada todo dia pra lá e pra cá? E lá também não terá mudança de professor? Você só não ficará sabendo, por causa da distância, e a ignorância, se traz paz de espírito, não muda os fatos, quando você descobrir os problemas, poderá ser tarde. 
A tia ficou meio parada, não falou muito. Falou que estava pensando em tudo. 
Eu também fiquei com aquilo na cabeça. Eu já falei com vocês que gosto de morar pertinho do meu colégio, mas vejo que isso é um problema para muitos colegas, até da minha turma, que já estão sonhando em namorar, em beber e fumar, e que odeiam quando a mãe delas ameaça falar com a tia Lúcia, com a tia Leila, com a tia professora. Elas conhecem todo mundo, a gente não tem liberdade nenhuma! Será que eu também vou ficar assim no ano que vem, cheia dessas preocupações?
Meu pai, que eu amo muito, falou bravo, um dia, para o meu irmão: Você vai fazer o que nós mandarmos, você é adolescente, não trabalha, depende de nós, é nossa responsabilidade. Só quando crescer vai entender isso. 
É, suspeito que ano que vem vamos ter um problema! Por enquanto, vou continuar aqui, ouvindo atrás das roupas penduradas no varal, entendo melhor do que quando falam direto comigo.

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