sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

AS DUAS FLORES

Já falei muito do meu pai. Ele foi um grande homem, nos seus erros e no seus acertos, estes que, também grandes e visíveis, não o deixavam passar despercebido. Atrás, porém, de um grande homem, diz um velho ditado... Então, minha mãe foi essa grande mulher, sempre presente nos bons e maus momentos, sem ocupar muito espaço mas sem deixar que invadissem o seu; silenciosa, mas, longe da mudez, falava sempre o que sentia necessário, se ocupava das suas (nossas) coisas, e odiava ser objeto de conversas dos vizinhos. Parafraseando Fernando Pessoa, ela seguia seu destino, regava suas plantas, amava as suas rosas, o resto, para ela, eram sombras de árvores alheias, não lhe diziam respeito. 
Hoje faz um ano de falecimento da minha Tia Luzia, a irmã da minha mãe. O pobre leitor deve estar achando que eu surtei, ao mudar abruptamente de assunto, inconcluso o primeiro; fico feliz em informar que ainda não. Na verdade, hoje, quando homenageamos a minha Tia Luzia, lembramos e homenageamos também a minha mãe, tão unidas eram as duas, que não dá para falar numa sem citar a outra. 
Tia Luzia foi se encontrar com minha mãe, aumentando o vazio que a irmã dela já havia deixado na família pouco mais de um ano antes. Filhos e primos nos unimos no mesmo sentimento, quando uma e outra partiram, tal era a ligação que existia entre elas. Minha mãe, era mãe dos filhos e dos primos, Tia Luzia... também. 
Não sei se todos viam assim, mas assim me parecia, então escrevo para registrar, antes tarde do que tarde demais, como eu via minha tia e minha mãe:
Tia Luzia e "Tia Mena" eram duas irmãs muito diferentes: Uma mais introvertida, outra mais expansiva; uma mais "caseira", a outra nem tanto; uma mais submissa, a outra com mais personalidade; uma mais ocupada com o dia a dia, o presente, a outra também, mas também atenta ao futuro, às novidades; uma mais tímida e conservadora, a outra mais despachada; uma tinha raízes mais pesadas, outra era mais cigana. 
Tia Luzia e "Tia Mena" eram duas irmãs muito íntimas, muito próximas, muito... iguais: Viveram longos anos, casaram-se com homens parecidos com elas,  tiveram muitos filhos, se dedicaram às famílias e a quem mais viesse, foram boas esposas, boas mães, boas amigas para todos. Seus filhos se espelharam nelas, seus maridos respeitaram sua força. E quando uma estava triste, procurava a outra; quando uma tinha uma problema, dividia com a outra; quando uma estava doente, a outra sentia. Eram cúmplices, unidas e solidárias. Duas flores unidas, como no poema de Castro Alves: "...bem como as penas das duas asas pequenas de um passarinho do céu". E distância nenhuma as mantinha distantes. Tanto faz se uma morava no Rio, na Arataca, em Bom Jesus, em Nova Friburgo ou no quintal da casa da outra (como já aconteceu); próximas ou não, estavam próximas, e assim tão sem fronteiras, que nem a morte as separou, uma seguiu a outra e juntas estão, pelos séculos do séculos, amém.

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