Há cinquenta, sessenta anos, o desafio maior de todos era complementar a renda familiar, e meu pai criava ou aproveitava todas as oportunidades possíveis. Não sei como, se transformou em intermediário no comércio de aves domésticas para abate, comprando das famílias e vendendo ao Abraão, um comerciante que vinha de Itaperuna.
Entre as quartas e sextas feiras recebíamos os homens, mulheres, e até criancas, que chegavam com as galinhas. Elas tinham os pés amarrados com fibras de bananeira, conhecidas como embiras, penduradas de cabeça para baixo num cabo de vassoura, ou mesmo numa foice com cabo, que era colocado sobre o ombro do individuo, com o peso distribuído, em equilíbrio, para frente e para trás. Meu pai fazia o preço, pesava, calculava o valor e pagava. Me ensinou. Minha mãe também sabia. Na época da Semana Santa, vinham também outros animais, como cabritos, carneiros e porcos. No sábado pela manhã, o Abraão passava com seu caminhão, e pesávamos tudo numa balança grande. A diferença entre o valor da compra e o da venda, mais o resultado quase sempre positivo das empreitadas que meu pai contratava com os fazendeiros da região, complementavam a renda e supriam os projetos de educação e sustento para uma família de, nessa época, sete pessoas.
Eu trabalhava auxiliando no atendimento no botequim, na compra e venda de animais e aves, nos apontamentos dos serviços por empreitada, e na administração de equipes de trabalhadores. Tinha que alimentar muito os animais às vésperas da pesagem, chamar a atenção do Abraão para erro ao pesar os animais, na soma desses pesos ou no fechamento das contas; fiscalizava o ponto dos homens, calculava o salário e deduzia as despesas e vales. Rotineiramente também ajudava minha mãe com as tarefas domésticas, cuidava dos irmãos menores e ia à Escola. Essas atividades desenvolveram no garoto tímido, habilidades como matemática, vocabulário, relacionamento, argumentação, raciocínio lógico e organizado, disciplina, resiliência, respeito, malícia também, e até livre arbítrio para decidir na ausência do pai. Ser, nesse contexto, quase sempre um dos melhores alunos da classe era obrigação, não era muita vantagem, afinal, a competição era desigual mesmo, eu tinha uma faculdade em casa, embora meu pai analfabeto, minha mãe mal alfabetizada, e nos relacionássemos sempre com pessoas de nível educacional semelhante ao deles, mas era um ambiente rico em oportunidades de aprendizado, que, embora na época não soubéssemos, aproveitávamos todas.
Os obstáculos iam sendo removidos ou contornados, os objetivos eram claros: sustento, educação e conforto para a família, nessa ordem. E a vida seguia o curso que meu pai queria, embora em voo de galinha.
Lembro muito do dia de matar, depenar e embalar as galinhas!
ResponderExcluirIsso foi depois, Roneida, rsrs, beeem depois. Nessa época era só compra e venda, não tinha criação e abate. Bjo.
ExcluirKKKKKKKKKKK...Tinha várias fugas de galinhas na hora de encher as gaiolas de transporte e me lembro muito bem duma noite, porque o Abraão quase sempre chegava no inicio da noite em casa, quando fugiram uma carga de cabras e ficamos horas para capturá-las na estrada. Nesta época, morávamos na casa mais perto do seminário.
ResponderExcluirNossas memórias guardam nossas histórias e as dos outros, e tudo isso formam um tesouro.
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