sábado, 8 de junho de 2024

DEUS, CORUJAS E MORCEGOS

Meu pai não era muito religioso, no sentido literal, mas pregava e vivia mandamentos como honrar pai e mãe, respeitar a mulher do próximo, amar o próximo com a si mesmo, não roubar e não matar; e era adepto ferrenho do "fazei o bem, não olhai a quem", pelo qual se chegaria certamente a Deus. E ele deve ter conseguido.
Me lembro da oração que ele fazia sempre, às refeições: "Meu Deus abençoai esse cumê que me deu sem merecê". Deve ter aprendido com os pais dele, repetiu, decorou e aceitou como estava, com  a rima pobre e bonitinha, rica de significado e tradição. Nunca se interessou muito por orações pré-formatadas, Pai Nosso e Ave Maria eram suficientes, o resto ele falava de improviso com Deus, num papo-reto
Quanto a mim, ainda criança eu tocava o sino na igreja às seis da manhã e às seis da tarde. Saía de casa ainda escuro, corria assustado de qualquer papel que o vento movimentasse, atravessava tremendo o salão da igreja, tentando, sem êxito, não olhar pra estátua do "Senhor morto", subia a escadaria da torre entre ruídos de madeira podre, e de corujas e morcegos voando assustados (só eles?), tocava o sino como se atirasse nos meus fantasmas, e voltava vitorioso para casa pra tornar a sair para o Colégio. 
Antes porém, com menos de sete, estudava em casa. Minha mãe não tinha paciência, então aprendi com meu pai, que era analfabeto, os numerais, as primeiras palavras e frases da cartilha, como "Vovô viu a uva", a única de que me lembro. Muitos lápis se quebraram na minha cabeça, imagino como seria com minha mãe!
Dna Elcy (professoras viraram tias bem mais tarde, antes eram só profissionais de educação, com o dever de ensinar, sem a emoção de pais e tios), Dna Elcy foi minha primeira professora, e em uma semana me passou para a terceira série primária, graças à teimosia de um analfabeto que acreditava na educação. 
Somente quando eu contava sete anos começamos a frequentar a igreja da cidade, onde meu primos já estavam, sendo que um deles, José Ronaldo, da minha idade, veio a se ordenar padre, espero que para ficar mais perto de Deus e interceder pelo perdão aos erros que iríamos cometer pela vida afora. 
Três padres conheci bem de perto. Do Pe José admirava o vocabulário rico, mas me marcou uma vergonha que me fez passar (ou me pareceu, à época): Era um casamento, já o tinha auxiliado em diversos; ele ia encerrando as assinaturas quando eu o alertei para uma que faltava. Ele riu, riu alto. - O coroinha querendo ensinar padre a rezar missa!.  Suprema humilhação, todos riram de mim. Ainda hoje acho que no tal livro existe uma linha em branco, mas... que me cale pra sempre! O Pe Manoel começou seu trabalho em Varre Sai e fui seu auxiliar por muito tempo, acho que aprendemos juntos muita coisa. Somos amigos até hoje, preciso ir vê-lo em Natividade e conversar um pouco, tenho me cobrado muito isso. E Pe Antônio era homem de obra. "Tá vendo aquela igreja, moço? Ajudei a reformar." A música antiga não é bem assim, adaptei-a pra me servir. Fui servente de pedreiro na igreja, e em seguida nos mudamos da cidade. Pe Antônio virou santo para a região, e eu... bom, de santo não tenho nada! 


4 comentários:

  1. Deste período há muitas e muitas histórias: por sermos quase da mesma idade, mas não só por isso e também por ser meu exemplo, também vivi estas histórias com alguns outros detalhes: não ía a pé, correndo tocar os sinos; ía de bicicleta sem pneus (era uma bicicleta preta, velha, grande - eu pedalava com uma das pernas por dentro dos canos devido ao tamanho da bicicleta e das minhas perna - e o barulho nos paralelepípedos eram tantos, que a cidade já acordava antes que eu tocasse os sinos.
    Também nessa época tivemos o primeiro contato com a música, lembra? E com o Jeep vermelho?

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  2. Respostas
    1. O pai te ensinou as primeiras palavras escritas?! Como?! Não sabia! Fiquei até curioso sobre como ele fez isso!

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    2. Sabia, sim. Ele sabia de cor a cartilha (adoraria encontrar um exemplar), não sei como identificava os textos, páginas etc., sei que me ensinou, e também a tabuada. Aliás, ele era bom demais nas quatro operações.

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