Meu pai nos viu nascer, a mim e ao meu irmão Flávio, no Rio de Janeiro. Na periferia. Na periferia da periferia. Num lugar chamado Viegas, periferia de Campo Grande na Zona Oeste, já na época abandonado por Deus, e, como tantas outras regiões, pelos governantes. Meus tios e primos cariocas eram de lá, sobreviviam lá, entre o pó da pedreira, que corrompia os pulmões de todos os trabalhadores, e outro pó, que corrompia os demais órgãos, inclusive os da sociedade.
Meu pai não queria aquilo pra nós, e resolveu buscar ares mais puros, em todos os sentidos.
Meus tios e primos cariocas se sentiam superiores aos do interior, e disseram que se mudássemos para lá, iríamos comer raízes de bananeiras. Na verdade não sei é como eles sobreviviam, tais as dificuldades que tinham, a fragilidade das moradias, a ausência de recursos de toda sorte, e de sorte.
Meus tios e primos de Varre Sai, que se sentiam inferiores aos cariocas por que achavam fossem estes mais inteligentes e mais informados, não fizeram muito esforço pela nossa mudança.
A marreta, com a qual meu pai trabalhava, e o pó de pedra que ele inspirava porém, não foram suficientes pra embotar-lhe o cérebro, e no final, fomos muito bem recebidos no interior por nossos tios e primos.
Fomos morar no sítio de meu tio, para nós um fim de mundo, chamado Arataca (hoje um local lindo e aprazível), onde meu irmão e eu vivemos grandes aventuras sobre cavalos de pau, tendo escapado de morte certa e rápida, da qual não escaparam meus tios e primos cariocas.
Em menos de dois anos meu pai já nos tirava da Arataca, agora com um fruto do vale, minha primeira irmã Rosângela. Ele nos trazia para a cidade, mas foi grato ao "Cumpadre Neca" por toda a vida, e juntos certamente estão hoje em dia. A gratidão sempre foi uma das virtudes de meu pai, ele não esquecia um favor recebido, e por mais que retribuísse, sempre se sentia devedor. Sigo o manual dele.

Figura marcante esse pai, hein? Gostaria de tê-lo conhecido!
ResponderExcluirParabéns! Belo texto!
Também tenho muitas lembranças dessa época e compartilho das suas. Uma que me vem como uma flash, é de uma casa na beira do Rio, ao lado da ponte e da venda do "Dalminho", quando uma enchente quis levar os porcos (não sei se nossos ou do tio Neca); Também não sei se éramos nós que morávamos ali ou se era ele. Como disse, é só um flash, como uma relâmpago.
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