sábado, 15 de março de 2025

ECLESIÁSTICO 30

"Eclesiástico 30.1 Quem ama o próprio filho usa bastante o chicote, para no fim se alegrar." 
Eu não quero me arvorar em intérprete da Bíblia, imagine, eu seria o mais incompetente de todos!, porém me arrisco a supor que o chicote a que o salmista se refere, ainda que na época dele fosse literalmente um chicote propriamente dito, um instrumento de castigo infelizmente ainda aceito nalguns países, ele hoje não é usado, ou não deveria sê-lo, ou não se aceita que o seja, em países desenvolvidos, mesmo naqueles não tão bem desenvolvidos. O próprio Cristianismo, que motivou os autores bíblicos, (embora o Eclesiástico seja um livro apócrifo, isso significa apenas que se desconhece o autor, mas, por óbvio, alguém o escreveu), os próprios cristãos pregam a não violência, o amor ao próximo, especialmente o amor aos filhos. A vinda de Cristo foi o ponto de inflexão, não só reiniciou a contagem dos tempos para quase o mundo inteiro, como também marcou a transição entre o velho e o novo, o Deus que castiga e o Deus que ama e perdoa. Esse mesmo Deus de amor, entretanto, também o é da disciplina, só que não mais com o chicote, ou pragas, ou dilúvios, mas com instrumentos mais inteligentes, mais modernos, ambientados nos nossos lares, na nossa escola, na nossa igreja, no nosso clube, na nossa sociedade, enfim, no nosso meio. 
Há famílias que são radicais, a lei é a lei, do jeito que está escrita, ainda que escrita há mais de vinte séculos: "Eu vou bater sim, ele precisa me obedecer, e só assim será possível a ele aprender". 
Há famílias que leem a lei e a aplicam de acordo com a nossa época, de acordo com o ambiente que vivemos: "Filha, nós te amamos muito, mas para seu próprio bem teremos que ser mais duros contigo."
Há famílias que não sabem e nem querem saber das leis, sejam as de Deus, as civis ou as éticas: "Eu sei o melhor para o meu filho, eu que ponho comida na mesa e pago a escola dele." 
E há famílias que pedem ajuda para encontrar o melhor caminho para educar os seus filhos. “Sei que eles são bons, que são inteligentes, estou errando nalgum lugar, preciso descobrir antes que eu perca os meus filhos!“
Uma mãe me mostrou, no Google, o Eclesiástico 30, esse que transcrevi no caput desse texto. É um trecho do site bíblia.paulus.com.br, mas na transcrição acima eu omiti uma observação importantíssima que passava despercebida à mãe, um curto alerta, que resume, antecipadamente à transcrição, o sentido do salmo, a intenção do salmista. Por favor, leia de novo, como lá aparece :
"Educar com bom senso -  1 Quem ama o próprio filho usa bastante o chicote, para no fim se alegrar."
Não por acaso a Bíblia é o livro mais antigo do mundo, e também o mais lido. Suas lições e conselhos sobrevivem aos séculos porque adaptáveis às leis e costumes de cada época, de cada povo, de cada nação, e sempre a interpretação de seus textos precisa estar condicionada ao bom senso. E o que seria bom senso? Vamos ao dicionário: "É a capacidade de fazer julgamentos e escolhas ponderadas e equilibradas, levando em conta a realidade e as normas sociais, morais e legais."
A sua Bíblia, se escrita hoje, mandaria você usar o chicote por que seu filho tirou nota ruim? 
Não seria mais ponderado suprimir-lhe o celular por uns dias, para que "sentisse" a dor e tivesse tempo para pensar e até para estudar? A dor da perda não seria, para ele, equivalente a uma chicotada, talvez até maior? A mesma Bíblia não te ensina também que há que se respeitar as leis dos homens? E essas leis não te tornam responsável pelos cuidados com seus filhos? O bom senso, citado com destaque na publicação, não significa levar em conta as normas legais? Afinal pecado é crime e crime é pecado! 
Cada vez mais difícil educar filhos, sobretudo quando somos pais cada vez mais cedo, e muitas vezes pais e mães têm que trabalhar, e os filhos, deixados sozinhos ou por conta de terceiros, não recebem os estímulos necessários a cada idade, e não aprendem a cuidar de si mesmos, a respeitar o outro, o valor do estudo, da disciplina, do asseio, da organização, da responsabilidade. Mas, responsabilidade é dever moral e legal dos pais para com os filhos, e a desculpa de não ter aprendido isso antes, não vai colar, frente ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público ou ao ministro da sua Igreja. Tampouco será justificativa aceita pela comunidade à qual pertencemos. Pais que maltratam seus filhos, arriscam-se às penas da lei e ao isolamento pela comunidade (os amigos, a igreja, o clube). 
Se nada disso, porém, for suficiente para que um pai ou mãe que agride um filho, com palavras (gritos, xingamentos e ameaças) com ações (tapas, safanões, soco), com omissões (deixar sem alimento, remédio, roupa, segurança ou educação), se nenhum dos argumentos citados convencer a esses pais de que um filho é um tesouro, deixado sob a nossa guarda e responsabilidade, e do qual prestaremos contas a Deus e aos homens, tem um argumento que me parece assustador: a criança agredida se tornará adulta e não nos perdoará; e repetirá os erros que cometemos com elas, eternizando uma corrente de maltratos e de famílias destruídas, que somente será interrompida quando pais ouvirem mais os seus filhos, a sua Escola, a sua Igreja, os seus amigos de verdade; e quando aprenderem a amar já, enquanto há tempo, os filhos estão pequenos e ainda em formação. Quem tem fome tem pressa, dizia o Betinho, o amor também tem fome... e urgência. 

Um comentário:

  1. Num mural na escola em que trabalho, deixei a seguinte mensagem, dita por Leandro Karnal numa entrevista: "Nós estamos ignorando a regra da convivência.". Com certeza, AMAR é uma regra a que devemos obedecer.

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