Sujo, calça e camisa sujas, bota muito suja, cabelo ralo, branco e desgrenhado, descia em direção à cidade. Nenhum documento, nenhum dinheiro, nenhuma bolsa, sem celular. Só andava em frente, determinado, como se soubesse o destino.
A noite se aproximava. A temperatura caía e ele buscou um abrigo. Nunca esteve exposto a tanto frio e nunca pensou ser tão difícil encontrar um abrigo. Escondeu-se no quintal de uma casa, aparentemente vazia, ao lado de uma empresa conhecida. Tinha andado uns quinze quilômetros!
Na madrugada fria acordou dolorido e faminto, e voltou a andar tentando se aquecer, enquanto a fome doía também. Ia em frente, não tão determinado quanto antes, já não parecendo saber o destino, e para quem não sabe aonde vai, qualquer destino é bom.
Não tinha dinheiro. Pediu um café num botequim, treinando antes a abordagem para parecer honesto, necessitado, inofensivo, como de fato o era. Nem precisou de muito esforço, ganhou o café e um pedaço de pão dormido. Ofereceu-se pra fazer algum serviço, mas o proprietário dispensou a oferta. Então... andou. Agora era apenas mais um andarilho. E sabia que não sabia aonde ia.
O calor voltou, o café o reanimou, e ele retoma o passo pelas margens da estrada, observando os arredores, procurando alguém com quem conversar. Buscava trabalho e alimentação.
Uma senhora varria o quintal de uma casinha simples. Cumprimentou-a sorrindo e ela retribuiu. O pit-stop rendeu água, café, uma banana, e um embornal com mais bananas e uma pet com água.
De volta à estrada, metade de um dia pela frente antes do terror de mais uma noite ao relento. Os carros passavam como vento, e o sol, indo ao poente, parecia mais rápido que os veículos, e a alternativa que se impunha era pedir informações e socorro. Um pequeno comerciante saberia dizer se alguém poderia ceder um teto e comida em troca de trabalho, ou de indulgência que fosse.
As duas primeiras tentativas foram terríveis, gaguejadas, humilhantes mesmo, mas a terceira foi bem sucedida: o dono de uma pequena mercearia cedeu um depósito nos fundos, para o pernoite; estava mais para um telheiro, quase sem paredes que era. Mas ofereceu água e um prato quente com arroz, feijão, macarrão e carne moída.
Noite difícil, porém melhor que a anterior. Os sacos vazios aqueceram o corpo, o cansaço o dominou e ele só acordou na madrugada. Lavou-se quase todo em um tanque externo, protegido pela obscuridade, também a camisa e a cueca, finalmente!
Mal o sol saiu, o dono reapareceu, e pareceu surpreso por ele ainda estar ali. Não iria embora sem ajudá-lo com algum trabalho, pra agradecer pela acolhida. Então: café da manhã, pão e manteiga, limpeza do depósito cheio de aranhas, teias, ratos, poeira, muitos sacos e caixas pra movimentar. Almoço, banho e... pé na estrada.
Estrada longa, continuada, sem fim.
O mesmo processo repetido muitas vezes, até em farmácia, numa certa ocasião, em busca de medicamentos comuns e material para curativos simples.
E a repetição, por dias e dias, levou à perfeição: acabou contratado como auxiliar em uma vendinha de um lugarejo distante o suficiente de sua cidade, por casa, comida e uns tostões para cositas personales.
Frequentava a igreja com o casal de argentinos, frequentava também a sua mesa, era tratado como hermano. Um parente do casal, porém, era caminhoneiro, e separou a "família " que se constituíra naqueles oito meses: Natal era o destino, um ajudante e companhia eram bem-vindos, e lá se foi o nosso andarilho, assistir à missa do galo em Natal!
Disse adeus aos amigos. Não pretendia voltar.
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